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Veleiro Aloysius: como o amor pelo mar transforma uma família

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Veleiro Aloysius: como o amor pelo mar transforma uma família. Matéria feita para a 2ª edição da revista digital A Arte de Navegar. Ela aborda a história de Patrícia, Pedro e Iara que moram em um veleiro em Paraty sempre em contato com o mar.

Matéria divulgada na 2ª edição da revista digital e interativa A Arte de Navegar. 

 

A etimologia do nome Aloysius significa ‘guerreiro glorioso que volta vitorioso de uma batalha’. Um nome marcante que unido a essa história comprova como os detalhes da vida se encaixam na trajetória de uma pessoa. Nesse caso, na construção de uma família nascida através da paixão pelo mar. Sensação a qual foi feita logo na infância para Pedro e por escolha na vida adulta da Patrícia. E logo, esse amor entre os dois e essa conexão pelas águas transbordou e nasceu a Iara, que em tupi significa ‘aquela que mora nas águas’. É possível dizer que isso resume como o mar, em sua infinita forma e caminhos, traça rotas que levam cada pessoa aonde ela precisa chegar, seguindo na maré que os seres humanos costumam chamar de escolhas e até mesmo coincidências.

Patrícia e Pedro se conheceram em 2015 em um evento e começaram a namorar no ano seguinte. Ele era diretor artístico e ela era mestre de cerimônias na ocasião. Segundo ela, foi amor à primeira vista e um detalhe que o chamou atenção logo no início – a tatuagem de mapa mundi que ela possuía no braço. Era um indício que as viagens fariam parte da vida do casal. Não demoraram para engrenar um relacionamento que traria bons frutos pelo caminho. Um dia, Pedro perguntou para ela o que achava da compra de um barco. Em primeiro momento, ela pensava que fosse brincadeira dele – até a conversa ficar mais profunda e começarem a acompanhar canais de conteúdo em vídeo sobre o assunto. E, nesse momento, o arrepio percorreu o corpo de Patrícia que percebeu que aquilo seria a próxima fase de sua vida. “Isso fez muito sentido, uma vida mais simples e perto da natureza, uma vida em que a gente realmente entenda o que vale, o real preço das coisas mais importantes. Isso foi me ganhando aos poucos”, conta a comunicadora que se habilitou em arrais-amador e mestre-amador.

Quando a decisão havia sido tomada, o próximo passo foi encontrar a embarcação para realizarem esse sonho. Em uma ida a um casamento na cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, souberam que um veleiro que estava à venda se encontrava no Yacht Clube da cidade de Rio Grande, foi então que eles se encontraram com os proprietários do barco na época, os quais se tornaram bons amigos no futuro. E foi neste momento que surgiu uma experiência desafiadora – buscar o Aloysius no sul do país e levá-lo até Paraty. Apesar dos cursos e todo o preparo teórico, ainda faltava a prática no mar. Porém, isso não impediu o casal de seguir firme neste objetivo.

 “Pedro saiu da cidade de Rio Grande e foi até Florianópolis, quando me juntei a ele e fui até Santos. Depois ele seguiu até Ilhabela e fui com ele novamente até Paraty.  Foi muito emocionante quando passamos a Ponta da Joatinga e já estávamos aqui em Paraty praticamente dentro da Baía da Ilha Grande. Eu chorei muito, foi incrível chegar aqui com o Aloysius. Era o começo de um sonho”. Patrícia Paes

 

Inclusive, dessa experiência ocorreu outro nascimento – de uma canção de autoria do próprio casal para registrar cada pedaço desse sentimento e fase da vida de ambos. “A princípio eu tinha a ideia que eu iria conhecer muito mais sobre o mar estando a bordo de um barco, vivendo aqui. Mas eu fui descobrindo aos poucos que eu tinha muito mais a conhecer sobre mim morando a bordo”, contou Patrícia. O nome Aloysius foi uma homenagem ao avô de Pedro, o qual coleciona memórias de sua infância ao lado dos avós com os netos em alto mar. Ao unir o afeto pelo nome e seu significado ficou claro no momento que esse seria o nome do veleiro.

Casa a vela

Minha mala é pequena

Só levo o que eu tenho pra ver

Viajo nas ideias

Pra vou e o que eu quero viver

 

O que move minha vida

É a emoção,

Não vou deixar ela passar

Ah essa coisa do vento

Foi o que me empurrou pro mar

 

Viver sem tempo

Viver no mar

E quando eu quero descansar

Deixo a minha casinha

No mesmo lugar

 

Viver sem tempo

Viver no mar

E antes que eu pense em me cansar

Pego a minha casinha e saio pelo mar…

 

Meu rumo não é o dinheiro

Meu rumo é a felicidade

E pra ter algo verdadeiro

Eu corro da vaidade

 

Eu não preciso de muito pra ser feliz

Apenas ter boas histórias pra contar

Já esperei demais, vou me jogar

Eu quero uma casinha na beira do mar

 

Viver sem tempo

Viver no mar

E quando eu quero descansar

Deixo a minha casinha

No mesmo lugar

 

Viver sem tempo

Viver no mar

E antes que eu pense em me cansar

Pego a minha casinha e saio pelo mar…

 

No início da mudança, algumas pessoas questionavam se era realmente o que queriam. Na época, a filha do casal – Iara – tinha um ano e meio e era o principal motivo da preocupação de algumas pessoas ao redor. Porém, o casal aceitou essa aventura e nova experiência de braços abertos e, no fundo, sabendo que isso tinha tudo para agregar na vida de cada um dos três. Como forma de adaptação, Patrícia deixou documentos importantes da família e não usuais no dia a dia com uma amiga próxima e roupas para a apresentação de eventos na casa de outro amigo e também seu maquiador. A casa da família em Valinhos, interior de São Paulo, foi alugada também como forma de renda extra para eles. Foram pequenos detalhes e estratégias para iniciar a mudança para a nova casa sobre o mar. A mudança de fato ocorreu em 2020 e tem sido transformadora, segundo eles. “Muito mais do que coragem, é um exercício de entrega, de se entregar a essa experiência e aprender, de humildade de estar aqui para aprender mesmo”, compartilhou Patrícia.

Outra mudança foi a de percepção, especialmente sobre estar sempre alerta na embarcação, não é possível ficar no piloto automático – é necessário estar presente o tempo todo. “Você está sentindo a entrada do vento. Você está percebendo que cada dia tem uma paisagem. As entradas de frente, os pré-frontais, as mudanças aqui, eu percebo tanto as mudanças das estações. Essa mudança é a coisa mais linda de se ver. Vou trabalhar em São Paulo e eu tinha uma cor na minha mente, na hora que eu volto e olho é outra cor. É outro azul, é outro verde, é outro amarelo”.

Apesar de tudo, Patrícia ressalta a necessidade de separar a expectativa e a realidade. “Eu sempre tive uma visão bem romântica de tudo isso. Desse pôr do sol e de nós tocando violão nesse momento. Mas não é só isso. Tem momentos de família, tem emoção à flor da pele, tem golfinhos pulando e muito mais. Porém, ter uma criança de três anos dentro de um veleiro também não é uma coisa fácil”, comentou Patrícia. Ela reforça a necessidade de diálogos frequentes, paciência e muita positividade no dia a dia, além de rotina para transmitir segurança a Iara e ser algo primordial em seu crescimento.

 

Adaptação e aprofundamento na carreira

Enquanto a Patrícia se adaptava revezando entre o trabalho remoto e os eventos, Pedro se encontrava no segmento náutico. Ele oferece consultoria em elétrica náutica, cursos e possui certificado internacional na área. Já o trabalho remoto da Patrícia também inclui gravação de podcast e locuções realizados dentro da cabine do veleiro – tudo com calma e adaptação para continuar com o profissionalismo de sempre mesmo em um ambiente diferente.

Ambos possuem um perfil no Instagram sobre cada área, Pedro produz conteúdo voltado para elétrica náutica no @embarquenaeletrica e Patrícia no podcast @muledemare – o qual entrevista mulheres do segmento náutico, compartilhando histórias, vivências e aprendizados. Disseminar toda a experiência para o máximo de pessoas possíveis e comovê-los de alguma forma – uma maneira de se conectar através da temática do mar.

A filha do casal, Iara, navega no veleiro desde o primeiro mês de vida, já é o ambiente dela – segundo eles. Além disso, Patrícia reforça a consciência ambiental que ela nutre desde cedo, passeios na praia recolhendo lixo, cuidado com os animais e preservação da natureza. Tudo isso é muito presente em sua vida, características com um grande impacto em seu desenvolvimento. “Eu não sei se ela vai se lembrar de tudo isso, talvez não, mas ela está sentindo.  Ela está aqui com a gente, sentindo tudo isso. Eu acho que isso faz toda a diferença”, expressou Patrícia.

Seja por escolha, coincidência ou até mesmo destino – cada um acredita no que preferir para definir o que sente e como a vida se transformou. Mas no final a única certeza é do amor que transborda na família Aloysius e das águas abençoadas por onde navegam.

 

Qual mensagem vocês querem transmitir com essa história?

Eu acho que essa questão de se desprender. De ter um sonho, não deixar esse sonho para um dia. Então, se você tem realmente esse sonho, não só de entrar no veleiro, comprar um veleiro, mas de fazer alguma viagem, eu acho que é a questão de colocar isso, soltar isso mesmo, fazendo analogia com o mar, soltar as amarras e ir para ver o que que vai dar. Claro que não fazer nenhuma maluquice, porque a gente ainda tem um trabalho remoto que dá para segurar as coisas. Você tem que ter uma fonte de renda, mas eu acho que é o ir, é o acreditar que isso pode acontecer. Que você pode fazer, que dá para se organizar e dá para viver essa experiência, não deixar isso para um dia, porque esse dia pode não chegar.

Teve alguma experiência que marcou profundamente vocês?

Talvez a minha chegada em Santos. Eu saí às oito da manhã de Paranaguá e cheguei quase meio dia do dia seguinte em Santos, muito cansada, mas a hora que eu cheguei lá eu tinha a impressão de que eu era uma outra mulher. Eu tinha feito aquilo, eu protagonizei essa experiência. Eu estava lá.

 

– A longo prazo, vocês continuam imaginando fazer da casa de vocês o Veleiro Aloysius?

Acho que vamos ficar aqui até que isso faça sentido. Eu acho que claro, tudo muito pautado agora, porque a nossa prioridade na vida é a Iara. É a formação dela. E que ela seja um ser humano bom para o mundo, acho que esse é o nosso grande desafio. Então enquanto fizer sentido por aqui a gente fica. Sem muito prazo, sem pensar muito nisso e a hora que a gente sentir que precisamos navegar em outros mares ou voltar para a terra, também não tem problema. Eu acho que são momentos, são fases, são aprendizados. Se não aqui, em outro lugar. Mas o importante é que a gente tenha a nossa missão. O nosso propósito que é seguir juntos e criar a Iara e trazer para ela experiências legais para que ela possa ser uma pessoa legal também para o mundo.

 

 

 

 

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