Matéria divulgada na 1ª edição da revista digital e interativa A Arte de Navegar.
Foi a bordo do veleiro ‘Tudo bem’ que uma família de paulistanos descobriu como o mar tem o poder de agregar experiências, acelerar amadurecimentos e alimentar a alma. Com planejamento para navegar durante três anos com seus filhos ao redor do mundo, eles comprovam como o amor, a resiliência e a gratidão são essenciais para uma vida mais leve e feliz, apesar de todas as adversidades e desafios do dia a dia.
A paixão pelo mar se iniciou há 30 anos com Pedro Zanni, administrador de empresas, professor e consultor, acostumado a velejar – ele sempre se encantou pelas águas do mundo afora e de todos os mistérios que o aguardavam. Quando conheceu Estela, psicóloga clínica e orientadora de carreiras, logo encontrou uma parceira para esse sonho. No início do namoro, Estela já começara a aprender sobre como conduzir o barco e todas as suas particularidades. Interesse em comum que foi crescendo e fazendo parte dos planos do casal a longo prazo. Ela sonhava em conhecer o mundo e ele gostaria que fosse navegando. Compartilhando o mesmo sonho, eles deram início a colocá-lo no papel. Viajariam por diversos lugares quando seus filhos estivessem em idade pré-escolar, experiência para enriquecer a vida de qualquer criança. E foi assim que aconteceu. Dessa união, nasceu Ana e Gabriel. O mar se tornou o quintal deles e o veleiro a casa da família.

ANA E GABRIEL
No início da viagem, Ana estava com quase 4 anos e Gabriel estava prestes a completar 2. O casal decidiu que quando o mais novo estivesse com essa idade, seria a hora de partir acompanhando esse período da vida de ambos os filhos. A primogênita nasceu com síndrome de Down, além de uma cardiopatia congênita que a fez passar por uma cirurgia aos quatro meses de vida. Fora isso, Aninha, como é chamada pelos familiares, apresenta desafios motores e dificuldades para comer que intensificam seus cuidados específicos. Porém, isso não a impediu de apreciar toda a beleza desta viagem e dar seus primeiros passos em dezembro de 2021 nas Ilhas Canárias. Um passo pequeno para muitos, mas um grande passo para a filha do casal. Eles atribuem esse desenvolvimento a vida no barco e seus benefícios para o amadurecimento de seus filhos. Já o caçula adquiriu mais equilíbrio e coordenação, compartilha os pais. Ambos também se encontram mais falantes e expansivos nos ambientes que frequentam.
Ana possui acompanhamento semanal com diversos profissionais via chamada de vídeo direto da capital paulista. Os profissionais que a acompanham incluem: fisioterapeuta, fonoaudiólogo e terapeuta ocupacional. Ela também faz ecocardiogramas periódicos e isso é realizado no país onde a família se encontra em cada momento. Enquanto Ana tem o acompanhamento de uma especialista em síndrome de Down, Gabriel é atendido pelo seu pediatra. Todo esse preparo mesmo à distância da cidade da família é fundamental para realizar esse sonho com segurança e garantia de saúde e liberdade.

PLANEJAMENTO
Em uma viagem de três anos como esta, planejamento e disciplina se tornam essenciais para desfrutar de tempo de qualidade sem grandes imprevistos financeiros. Pedro estudou por muitos anos e adquiriu experiência em meteorologia, elétrica, mecânica, entre muitos outros fatores para navegar. O casal explica que estudou detalhadamente o orçamento necessário que precisariam para todo esse período e fizeram uma reserva nos anos anteriores sempre com preparo para quando o momento chegasse. Outro ponto ressaltado é a economia de se viver em um barco, apesar de não parecer. No momento, eles não pagam aluguel, água e luz. Além disso, não há custo com escola para as crianças e os momentos de entretenimentos são gratuitos e a maioria ao ar livre sem necessidade de funcionários para auxiliar com eles ou com a casa.
Fora isso, os últimos passos da viagem também são primordiais. O plano é retomar o trabalho assim que retornarem à cidade de São Paulo e vender o barco no final do projeto. Uma outra forma de dinheiro constante foi alugar o apartamento que viviam em São Paulo, assim conseguem uma renda extra que faz diferença no dia a dia. Entretanto, Estela e Pedro alertam sobre outro ponto importante, é necessário considerar a manutenção do barco, combustível e plano de saúde. Tudo isso torna a viagem mais segura para aproveitar todos os momentos.
Outra questão que preocupava Pedro e Estela eram os medicamentos de Ana e outros que a família poderia precisar. Por conta disso, eles mobilizaram diversos profissionais e especialistas para se prepararem com todos os medicamentos possíveis para a viagem, já que muitos precisariam de receitas médicas para a compra.
Eles compraram o barco via WhatsApp na Espanha. Pedro conta que encontrou a embarcação pela internet e um profissional foi realizar a vistoria do local para garantir uma compra de qualidade. Isso aconteceu cinco meses antes do início desta história. Quando os valores foram acertados, a família se preparou para os próximos passos rumo à aventura.

TRAJETÓRIA
Eles partiram do Brasil em abril de 2021 rumo à Grécia para realizar a quarentena e ingressar na Europa. O veleiro aguardava a família no porto de Dénia, na Espanha, onde chegaram em abril. Desde a chegada no veleiro ‘Tudo Bem’ passaram pelas ilhas Baleares, na Espanha, Sardenha, Sicília, na Itália e Córsega, na França. O veleiro seguiu para Lanzarote – Ilhas Canárias – no final do ano e chegou em Cabo Verde no primeiro dia de 2022. Após quase três semanas de viagem chegaram até o Caribe onde se encontram até hoje. Cada vez que a âncora permanece no mar, a família abraça a cultura e aprendizados da cidade e país atual.
Eles navegaram pelo Mediterrâneo, atravessaram o Atlântico e hoje estão no Caribe onde ficam até o final do ano, momento em que atravessam o Pacífico para chegar até a Austrália, última parada da família antes de voltar ao Brasil e local da venda do barco.

DESAFIOS
Tarefas simples do dia a dia se tornaram um pouco mais complicadas durante a viagem, mas nada que a experiência não compense. Atividades como tirar o lixo e ir ao mercado, se tornam grandes esquemas de logística para se locomover do bote até a cidade e depois retornar ao veleiro com todas as compras e com as crianças e seus carrinhos de transporte. Mas o casal garante que se acostumaram mesmo com o mar agitado de alguns dias. Fora isso, o uso consciente dos recursos do veleiro também é importante, como a redução do uso de água para o banho e lavar a louça, por exemplo. As roupas também são lavadas seguindo um próprio esquema no barco para garantir um bom funcionamento da embarcação.
SEGURANÇA
O veleiro “Tudo Bem” possui três rádios usados para a comunicação com a terra e embarcações que navegam na proximidade. Além disso, possuem equipamentos ligados a satélites, telefone, GPS e sistema de navegação próprio do barco. Tudo é planejado para o máximo de segurança e com todos atentos às previsões do tempo.


EXPERIÊNCIA
No verão europeu era costume a família realizar todas as tarefas durante o dia, cozinhar no barco e sair para a cidade no final da tarde retornando apenas a noite. Período mais fresco e repleto de experiências culturais e gastronômicas.
Durante suas histórias e encontros pelos lugares que passa, a família também coleciona bons amigos e risadas. Segundo eles, isso se torna um prazer muito grande, colher novas amizades e criar memórias que ficarão para sempre em suas lembranças. Além disso, a mensagem que a família transmite é de união e encarar a vida de forma mais leve – esse período juntos fortalece a conexão que possuem um com o outro, uma transformação que eles levarão para a vida toda. Pedro, Estela, Ana e Gabriel mostram que cada parte desta história vale a pena e que no final vai ficar tudo bem. Afinal, casa de verdade é onde mora o coração ao lado de quem ama.

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NAVEGANDO COM PEDRO E ESTELA ZANNI
– Qual lição vocês levam até hoje desta viagem?
O primeiro aprendizado é que a gente viu como dá para ir atrás do sonho. Aquele sonho que parece muito distante, muito maluco, muito difícil e que tem um monte de barreiras. A medida que você vai estudando, se preparando, fazendo ponto por ponto, lendo, ouvindo outras pessoas, você vai vendo que é possível se organizar e se preparar. E hoje estando aqui e tendo estudado e ultrapassado várias barreiras é que enxergamos que esse projeto para quem sonha com isso é super possível e realizável, desde que esteja disposto. O primeiro aprendizado então é esse, vale a pena ir atrás do seu sonho, derrubando alguns mitos e barreiras. Uma grande lição que aprendemos também foi como é bom e importante ter contato com as coisas essenciais da vida. Estamos muito unidos como família, vivendo um período muito importante na fase das crianças e junto delas, desfrutando muito da natureza e da vida, além da alegria e diversão. Temos todas as tarefas e desafios a serem vencidos, porém, tem muito o desfrutar da vida e isso faz parte da essência de viver.
– O que foi mais difícil de abrir mão?
De todo o conforto que a gente tem na vida tradicional, na rotina de São Paulo. Tínhamos a casa, pessoas que ajudavam, rotina das crianças na escola e terapia, família e muitas outras coisas – tudo em uma zona de conforto. Abrimos mão de tudo isso para viver na instabilidade, tomar chuva na volta do mercado, estar com as crianças 7 dias por semana, 24 horas. Todas as pequenas coisas que em nossa rotina eram fáceis, aqui tudo exige mais esforço, mas em troca adquirimos muita experiência.
– Teve algum momento que vocês consideram que foi o mais especial até agora?
Tiveram muitos momentos especiais, mas a travessia do Atlântico foi uma grande conquista. Nos preparamos em torno de dois a três meses, desde fazer manutenção e melhorias no barco a pensar esquema com a tripulação, conversar com pessoas para serem tripulantes extras, fazer todo o levantamento de mantimentos e retomar o esquema de segurança já que passamos 17 dias no mar. Foi todo um preparo para depois ter uma realização e estado de superação desse desafio – foi um sucesso para nós em todos os sentidos. Passamos muito bem em todos os dias, as crianças ficaram ótimas, a tripulação que estava conosco foi uma delícia, muito divertidos. Começamos a brincar de competição de cozinhar, então todo dia alguém fazia um super prato. Vimos golfinhos, final de tarde sempre tinha um pôr do sol gostoso que íamos todos para a proa do barco e ficávamos curtindo. Além disso, muitos desafios superados por uma série de circunstâncias – acabamos vindo com tripulante a mais, estávamos com 5 adultos e 2 crianças no barco de 13 metros. Porém, foi muito tranquilo, momentos em que cada um ficava quieto com um espaço de silêncio. Desde o desafio da convivência e de fazer a travessia – foi um marco para levar para toda a vida.
– Em qual palavra ou frase vocês definiriam essa experiência?
Toda essa experiência de superar desafios do dia a dia e medos. Como a travessia do Atlântico, ter uma conquista que faz você olhar para todos os seus medos e lidar com cada um deles. Acho que é ganho de amadurecimento e de desenvolvimento como pessoas.
– Qual cidade vocês estão neste momento? E até quando vão ficar nela?
Estamos nas Ilhas Virgens Britânicas e ficaremos aqui por aproximadamente mais uns 20 dias.
– Como vocês pensam que essa experiência vai impactar na vida da Ana e do Gabriel? E na vida do Pedro e Estela?
Pensando nas crianças, tem um tanto que nem conseguimos imaginar já que são muitos impactos. Mas pensamos nessa estrutura de família, eles poderem estar vivendo tão próximos de nós nesta idade pré-escolar com o nosso apoio constante, além de compartilhar muitas experiências com eles. Essa relação com a natureza também cria memória afetiva, tendo muita liberdade em se desenvolverem livres e entender a relação do corpo com o mar e com a areia. Tudo isso são experiências muito ricas que de outra forma talvez não teriam e que ajuda na construção do desenvolvimento, autonomia, segurança, etc.
Já para nós, Estela e Pedro, uma das coisas é abrirmos o nosso campo de possibilidades de formas de viver e expandir esse olhar. Além disso, esse ganho como família dentro da nossa relação com as crianças é um presente de poder estar com eles neste momento. Além dos desafios de querer ter mais tempo de descanso e individual também. Nos conhecemos melhor como casal também, agora estamos convivendo 24 horas por dia, todos os dias e por 10 meses até o momento. É diferente de ter um tempo na rotina de trabalho e compromissos diários. É algo que poderia ser um grande desafio, mas tivemos muita conversa que não tínhamos antes para tudo ficar mais confortável para ambos. Basicamente seria isso, um aprofundamento na relação, um vínculo maior e uma história mais forte juntos.
– Qual é o conselho de vocês para os pais que pensam em realizar uma viagem como essa, mas sentem medo?
Se planejem, preparem e conversem com pessoas que já fizeram. Com certeza dá para fazer com segurança.





