
Nos dias 17 e 18 de junho de 2026, o STATE Innovation Center, em São Paulo (SP), recebeu o IV Workshop de Refit Náutico. O evento foi realizado pela Step on Board em parceria com a Boat Shopping. A programação contou com participação presencial e transmissão online. Além disso, reuniu profissionais da indústria náutica de diferentes áreas.
Entre os participantes estavam engenheiros, estaleiros e fornecedores. Também participaram estudantes, especialistas e proprietários de embarcações. Ao longo dos dois dias, o evento promoveu debates sobre os caminhos do setor náutico no Brasil.
Ao longo de dois dias de programação, o Workshop ampliou o olhar sobre o universo do refit — processo de reforma, atualização e modernização de embarcações — e trouxe temas que vão além dos aspectos técnicos, incluindo comportamento do proprietário, experiência a bordo, certificação, design, inovação, performance e tomada de decisão.
Um momento de amadurecimento para o mercado náutico
Segundo Keity Cicaccio, uma das organizadoras do evento, o principal resultado desta edição foi a qualidade das conexões geradas. Além disso, ela destacou a evolução do encontro.
Segundo Keity, o encontro mostrou uma evolução em relação às primeiras edições.
“Esta edição do Workshop de Refit marcou um momento importante de amadurecimento do evento e do próprio mercado náutico brasileiro. Diferente das primeiras edições, que tinham um foco mais concentrado em aspectos técnicos da reforma de embarcações, desta vez conseguimos ampliar a conversa para temas como comportamento do proprietário, experiência a bordo, design, certificação, performance, inovação e tomada de decisão.”
Ela também destacou que o evento consolidou um novo papel dentro da indústria.
“O que mais me chamou atenção foi a qualidade das conexões geradas entre profissionais, empresas, estaleiros, fornecedores, estudantes e proprietários. O evento deixou de ser apenas um espaço para compartilhar conhecimento técnico e se tornou um ambiente de construção coletiva, onde diferentes áreas da indústria puderam dialogar sobre o futuro do setor.”

Para a organizadora, a presença do público e o alcance da transmissão online reforçam uma demanda crescente por conteúdo especializado.
“Ver o auditório cheio, a participação ativa do público presencial e o alcance da transmissão online reforça que existe uma demanda real por conteúdo qualificado, troca de experiências e fortalecimento do mercado. Saímos desta edição com a certeza de que estamos construindo algo que vai muito além de um evento: estamos contribuindo para o desenvolvimento de uma cultura de excelência na náutica brasileira.”
Planejamento, escolha e estrutura: decisões que começam antes do refit
A abertura do primeiro dia trouxe uma reflexão sobre um ponto que antecede qualquer reforma: a tomada de decisão na compra e na evolução de uma embarcação.
O engenheiro Francisco Raposo e o broker Paulo Pini discutiram como o processo de refit frequentemente nasce ainda na fase inicial do relacionamento entre cliente e embarcação.

Ao ser questionado sobre a presença de um broker em um workshop voltado ao refit, Paulo explicou que o papel desse profissional é conectar expectativa, necessidade e viabilidade.
Segundo ele, existe um momento em que o desejo de ter um barco precisa encontrar direcionamento técnico e financeiro para se tornar realidade.
Complementando a discussão, Francisco Raposo reforçou que o resultado de uma reforma depende diretamente da preparação inicial.
“O sucesso de uma reforma vem através de um bom planejamento.”
Na sequência, Januario Gagliardi, da JRG Corp, e Caio Dias conduziram uma palestra sobre como a estrutura do estaleiro impacta diretamente a segurança, eficiência operacional e viabilidade técnica dos projetos de refit. Com experiência ligada ao comércio internacional, Januario também trouxe reflexões sobre a influência das relações globais no desenvolvimento do setor.
O que não aparece pode definir o desempenho e a segurança da embarcação
Um dos blocos técnicos mais comentados abordou elementos que muitas vezes ficam escondidos durante o uso cotidiano da embarcação.
Na palestra “O que a água esconde? Mangueiras, conexões e válvulas: o que fica fora da vista e pode afundar um barco”, Bruna Guidon apresentou pontos críticos que exigem atenção durante processos de manutenção e reforma.
Já o engenheiro Bruno Melo aprofundou discussões sobre elétrica, eletrônica e projetos elétricos embarcados, destacando situações que frequentemente só aparecem quando a embarcação é desmontada.
Na mesma linha de análise estrutural, Ada Di Grassi, da Italy Boats, apresentou reflexões sobre o que existe por trás das superfícies e acabamentos.
Complementando o tema, Eduardo Neves, CEO da Subiter, mostrou como diagnósticos estruturais profundos realizados com alta tecnologia têm contribuído para avaliações mais precisas e tomadas de decisão mais assertivas.
Refit é evolução, não substituição sem estratégia
A discussão sobre modernização de embarcações ganhou novos contornos com a palestra de Vittorio Biseo.
Durante sua apresentação, o especialista trouxe um questionamento recorrente dentro dos projetos de atualização:
“O objetivo não é substituir equipamentos sem restrições. O objetivo é melhorar a embarcação.”
A fala reforçou uma das mensagens centrais do evento: refit não significa trocar tudo, mas compreender necessidades reais, desempenho esperado e vida útil dos sistemas.
Especificações corretas evitam retrabalho e aumentam a segurança
Outro destaque do primeiro dia foi o painel “Especificar mal custa caro”, que reuniu especialistas para discutir decisões técnicas e seus impactos no longo prazo.
Felipe Mendes, engenheiro mecânico da Danimar’s Inox, alertou para erros na seleção e conferência de materiais, especialmente em aplicações com aço inox.
Na sequência, o engenheiro Raymond Granthan, da Coninco, abordou problemas recorrentes relacionados à pintura.
Já Viviane Ponciano, fundadora da VP Iluminação, chamou atenção para um ponto que ainda aparece em muitas embarcações: sistemas antigos de iluminação.
Segundo ela, a substituição por tecnologias mais eficientes também está relacionada à segurança, já que lâmpadas convencionais podem gerar aquecimento excessivo em determinadas superfícies.
Experiências reais mostraram que o planejamento também exige adaptação
A programação seguiu com a palestra “Quando nada sai como o planejado”, conduzida por Danilo Sandrin.
Foi compartilhando experiências práticas, situações inesperadas, ajustes realizados durante operações e decisões críticas tomadas em cenários reais.
Encerrando o primeiro dia, Marcos Hurodovich e Thierry Stump apresentaram “Bastidores e aprendizados reais: um refit, um barco, uma expedição — e muito gelo”.

A conversa trouxe relatos sobre rotina a bordo, preparação da embarcação, desafios operacionais, manutenção e aspectos que normalmente não aparecem durante o planejamento inicial.
Certificação, design, sustentabilidade e experiências do proprietário marcaram o segundo dia
O segundo dia começou com uma análise sobre o cenário do refit no Brasil e no exterior.
A palestra reuniu os engenheiros da RINA, com participação de Januario Gagliardi e Jorge Cipriano, Marine Senior Project Manager, trazendo perspectivas internacionais sobre certificação e evolução do setor.
Em seguida, o painel “Do luxo à performance” reuniu Marcos Hurodovich — construtor naval e participante da construção do Paratii 1 de Amyr Klink — e Cristina Kuhlmann, fundadora e designer da Caktus Ocean, empresa que transforma velas náuticas em desuso em novos produtos por meio do upcycling.
Na sequência, Carla Lopes compartilhou sua experiência pessoal conduzindo a reforma do veleiro Andorinha. O relato incluiu vivências morando a bordo, participação em travessias e aprendizados adquiridos durante todo o processo.

Também participou da programação o Velho Jack, que apresentou experiências acumuladas em reformas de veleiros dentro de uma trajetória construída em ambiente familiar.

Tecnologia e novos materiais ganham espaço no refit náutico
A inovação apareceu como um dos temas centrais do encerramento do Workshop.
Hugo Santos conduziu uma apresentação sobre inteligência artificial, modelagem digital e scanner 3D aplicados ao refit náutico, destacando como novas ferramentas vêm acelerando processos e ampliando possibilidades.
Renato Figueiredo, da Nautos, apresentou soluções voltadas ao universo da vela.
A programação também contou com a participação da SICRO, que apresentou tecnologias de dessalinização para embarcações.

Outro destaque foi a palestra de Deivity Rosa, diretor da Personal Boat, que compartilhou conhecimentos sobre aplicações e requisitos técnicos relacionados aos vidros embarcados e apresentou amostras durante sua participação.
“Com uma missão a cumprir, confiabilidade deixa de ser diferencial e passa a ser requisito — e o vidro é parte desse requisito, pela segurança.”

Encerrando o evento, Danilo Sandrin participou do painel sobre motores marítimos ao lado de Marcos Hurodovich, que trouxe experiências adquiridas em expedições realizadas em veleiros.
Workshop reforça cultura de excelência na náutica brasileira
Mais do que discutir técnicas de reforma, o IV Workshop de Refit Náutico mostrou como o setor vem ampliando sua visão sobre eficiência, segurança, inovação e experiência.
Ao reunir especialistas de diferentes áreas e promover trocas entre mercado, operação e tecnologia, o evento reforçou um movimento crescente de profissionalização e fortalecimento da náutica brasileira — objetivo que, segundo os organizadores, seguirá guiando as próximas edições.





