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Iate sustentável de 70 metros: conheça o Project Zero sem emissões

Projeto Zero aposta em tecnologia, design e energia limpa para provar que o futuro da náutica de luxo pode ser totalmente sustentável.

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O Project Zero é um iate de quase 70 metros que aposta em navegação à vela, baterias e energia renovável para operar sem combustíveis fósseis. O projeto reúne tecnologias inovadoras e open-source, apontando novos caminhos para a náutica sustentável sem abrir mão do luxo.
Iate Project Zero navegando à vela em mar aberto com três mastros

 Um iate de 69 metros totalmente livre de combustíveis fósseis está prestes a ser lançado na Holanda, depois de seis anos de desenvolvimento intensivo. O Project Zero representa uma aposta radical: provar que embarcações de luxo podem operar com zero emissões sem comprometer conforto, desempenho ou estética.

O projeto nasceu em 2019, quando clientes experientes procuraram a empresa de gestão náutica Fraser com uma proposta ambiciosa. A resposta da maioria dos estaleiros foi cética. Mas o designer Marnix Hoekstra, da Vripack, viu uma oportunidade. Ele aceitou o desafio com duas condições inegociáveis: nenhum combustível fóssil a bordo — nem mesmo como backup — e nenhum compromisso estético em nome da tecnologia.

O que diferencia este projeto de outras iniciativas sustentáveis é sua filosofia open-source. Toda pesquisa e solução técnica desenvolvida está sendo publicada gratuitamente pela Foundation Zero, organização sem fins lucrativos dos proprietários, com o objetivo de acelerar mudanças em toda a indústria náutica.

Deck superior do iate Project Zero com áreas de lazer e painéis solares

Casco projetado para economizar cada watt

O escritório Dykstra Naval Architects, responsável por projetos icônicos como o Maltese Falcon e veleiros da Classe J, desenhou um casco excepcionalmente longo para o volume interno oferecido. Com 491 toneladas brutas, o Zero tem metade do volume de iates convencionais de 70 metros — uma escolha deliberada para reduzir arrasto e maximizar eficiência energética.

A equipe usou software avançado e consultoria da Emirates Team New Zealand para encontrar o equilíbrio perfeito entre baixa resistência hidrodinâmica e alta estabilidade de forma. Cada parâmetro do casco foi testado virtualmente para entender seu impacto na velocidade e no consumo de energia.

Apesar de carregar impressionantes 28 toneladas de baterias de lítio customizadas — armazenando 5,2 megawatt-hora de energia —, a autonomia sob motor elétrico é de apenas 400 milhas náuticas. A conclusão é clara: este iate precisa navegar à vela para funcionar plenamente.

Geração de energia: sol, vento e movimento da água

Os painéis solares instalados nos hard-tops somam 100 m² e podem gerar 23 kW de eletricidade, além de capturar até 55 kW de energia térmica. Mas a verdadeira estrela do sistema é a hidrogeração: hélices que funcionam como geradores enquanto o iate navega à vela.

Dois propulsores Hundested montados em pods rotativos — posicionados à frente e atrás da quilha — podem girar para frente durante a navegação e gerar entre 230 e 250 kW de eletricidade quando o barco atinge sua velocidade ideal de 16 nós. Mesmo a partir de 8 nós, o sistema já cobre as necessidades energéticas de navegação e hotelaria.

Eduard van Benthem, engenheiro marítimo e gerente do projeto, explica que a hidrogeração pode custar até dois nós de velocidade. Por isso, o iate conta com uma sala de navegação dedicada e software customizado que analisa dados meteorológicos para identificar as melhores rotas de recarga das baterias — uma volta aos tempos da navegação comercial à vela, quando capitães buscavam sistemas climáticos favoráveis.

Eficiência energética levada ao extremo

A equipe descobriu que sistemas de hotelaria respondem por metade do consumo energético em iates de luxo. Ar-condicionado e aquecimento de água eram os vilões. A solução veio de um físico chamado Bob, que identificou oportunidades de capturar, armazenar e reutilizar calor residual.

O Zero coleta calor desperdiçado por equipamentos como propulsores laterais e de um circuito de glicol que resfria os painéis solares. Esse calor é armazenado em uma bateria de sal fundido e usado durante a noite. Parte aquece água para uso geral; outra parte alimenta chillers que resfriam água a 12°C, circulada por painéis nas paredes e tetos para climatizar os ambientes.

O resultado é um sistema de climatização oito vezes mais eficiente que ar-condicionado convencional, economizando 300 kWh por dia. Não há ruído de ventiladores nem correntes de ar desconfortáveis.

Até os mastros de carbono foram redesenhados. Fabricados pela Carbo-Link, são ocos e perfeitamente lisos internamente para funcionar como chaminés naturais. Conforme o mastro aquece durante o dia, o ar quente sobe e puxa o ar viciado das cabines, eliminando a necessidade de ventilação forçada e economizando 3 a 4 kW.

Mil sensores e um bilhão de dados por dia

O Zero está equipado com mais de 1.000 sensores individuais capazes de gerar mais de um bilhão de pontos de dados diariamente. Essas informações são transmitidas para terra firme para processamento, permitindo análises detalhadas de desempenho e ajustes contínuos.

Entre as tecnologias experimentais está o Lidar — sistema que usa luz invisível para criar imagens 3D das velas em tempo real, similar ao usado em carros autônomos. A ideia é ajudar a tripulação a manter o ajuste ideal das velas mesmo em longas travessias oceânicas, quando a atenção tende a relaxar.

Cada detalhe foi pensado para economizar energia. Os guinches customizados de escota têm modo de rebobinamento que gera eletricidade, como freios regenerativos de carros híbridos. Os 13 guinches cativos escondidos sob o convés também geram energia ao soltar cabos. Até o posicionamento do freezer dentro da câmara fria foi estratégico: ar frio que escapa do freezer ajuda a resfriar a geladeira.

O que isso significa para o mercado náutico

O Project Zero não é apenas um iate — é um laboratório flutuante. Os proprietários já planejam o primeiro retrofit antes mesmo do lançamento, reconhecendo que a tecnologia de baterias e outros sistemas evolui rapidamente. A filosofia open-source garante que cada avanço técnico esteja disponível para toda a indústria.

Para o mercado brasileiro, onde a discussão sobre sustentabilidade náutica ainda engatinha, projetos como este sinalizam o futuro inevitável. Embora iates de 70 metros estejam fora da realidade da maioria dos navegadores nacionais, as soluções desenvolvidas — desde sistemas de climatização eficientes até gestão inteligente de energia — podem ser adaptadas para embarcações menores.

A tendência de eletrificação já chegou às lanchas e veleiros de médio porte em mercados europeus e norte-americanos. No Brasil, onde a infraestrutura de recarga ainda é limitada, a combinação de painéis solares com sistemas de hidrogeração pode ser especialmente relevante para cruzeiros costeiros e navegação em reservatórios.

O Zero demonstra que luxo e sustentabilidade não são excludentes. Para proprietários e compradores que valorizam inovação e responsabilidade ambiental, este projeto estabelece um novo padrão de referência. A questão não é mais se a náutica de zero emissões é possível, mas quando ela se tornará acessível em diferentes escalas de mercado.

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