O dicionário traz o significado de sororidade como: “Relação de irmandade, união, afeto ou amizade entre mulheres, assemelhando-se àquela estabelecida entre irmãs”. Essa base pode ser construída em diferentes cenários e ocasiões. Na história que estamos prestes a contar, ela rodeia um encontro que aconteceu em 8 de março de 2019.

8 de março. Dia Internacional da Mulher e de diversas comemorações e reafirmação de direitos ao redor do mundo. Nesta data no ano de 2019 a celebração também foi outra. Havia sido instaurada a Liga das Mulheres pelo Oceano. Na época, mulheres se juntaram em um encontro presencial para discutir alternativas e soluções em prol do oceano e proteção de suas águas, assim como a participação feminina na área.
O ponto de partida inicial foi uma conversa entre a bióloga e pesquisadora Leandra Gonçalves, a fotógrafa Barbara Veiga e a jornalista Paulina Chamorro. Todas estavam conectadas de certa forma com essa narrativa e causa, apesar de estarem em segmentos diferentes como comunicação e pesquisa. Porém, apesar disso todas foram unânimes ao admitirem que muitas ações feitas por mulheres em relação ao oceano não tinham a atenção necessária e merecida. Além desta dificuldade, elas também reconheceram que as mulheres possuíam uma singularidade na comunicação com a proteção dos oceanos e toda a sua importância.

Foi nesse momento que o dia 8 de março teve mais uma razão para celebrar. Leandra, Barbara e Paulina decidiram convidar quase 30 mulheres que atuavam na conservação marinha para se reunir em São Paulo como forma de debater o assunto e analisar a possibilidade da criação de uma liga, além de encontrar formas para dar visibilidade e reconhecimento ao oceano. Hoje, todas as mulheres presentes neste dia formam o Conselho Fundador da Liga.
“Todas concordaram e disseram que já tinham passado por momentos de invisibilidade, por misoginia na conservação, muitas não se sentiam reconhecidas e também concordavam que era necessário um grupo, um movimento e uma rede que viesse pra empoderar as mulheres e para conservar o oceano”, contou Leandra, uma das fundadoras da Liga.
Atualmente, a Liga é formada por mais de 2.500 mulheres de diferentes profissões. A maioria é ligada à ciência, porém, também faz parte mulheres das áreas de: esporte, comunicação, ativismo, organizações não governamentais, governo, artistas e também mulheres de comunidades locais, entre muitas outras. Sobre a faixa etária, Leandra também enfatiza a abrangência presente, desde mulheres no início da universidade até mulheres com uma carreira já consolidada. A Liga está presente em todo o litoral brasileiro e em outros países da Europa, como Portugal, por exemplo. De maneira horizontal e participativa, a Liga se manifesta de forma colaborativa entre pessoas que compartilham um mesmo posicionamento em prol da proteção dos oceanos.
Leandra Gonçalves é bióloga com mestrado em biologia animal e doutorado em relações internacionais. Considerada uma cientista interdisciplinar, atua principalmente com gestão e políticas públicas para conservação do oceano. Ela sempre manteve interesse sobre a interface da sociedade com o mar e analisando como às políticas públicas poderiam ser melhor construídas para garantir a conservação do oceano.
“A Liga veio como uma ponte para construir diálogo entre a ciência, a sociedade e as políticas públicas. Eu vejo isso de uma forma muito interdependente. A Liga veio como uma forma de nos comunicarmos para a sociedade o impacto, o problema e as soluções que podem existir para o oceano e para a sua conservação”, enfatizou Leandra.
Segundo a UNESCO, em 2020 dados mundiais apresentaram que apenas 30% dos cientistas são mulheres e no Brasil o número representa cerca de 40%. Para Leandra, as mulheres estiveram muito presentes nas ciências em diversas áreas de conhecimento ao lado de várias descobertas científicas, porém, não é sempre que elas ganham protagonismo nas áreas em que atuam – o que também ocorre nas ciências do mar. Duas questões que a pesquisadora ressalta é a falta de reconhecimento dessas profissionais mesmo com a execução de trabalhos excelentes e do efeito em que mulheres ingressam no curso de ciências do mar, mas poucas se ascendem e se destacam na área. “Isso é explicado por várias questões: o ambiente acadêmico não está preparado para discutir questões relacionadas ao papel da mulher e o papel de mãe. Assim sempre teve uma desigualdade de gênero muito grande no que se refere a você atingir os níveis de produtividade, ao seu tempo de dedicação, a você conseguir recurso para as suas pesquisas”, completou a pesquisadora.
Apesar disso, Leandra destaca a presença de excelentes nomes na ciência. Ela também enfatiza que recentemente a Liga das Mulheres pelo Oceano junto com a Cátedra da UNESCO para Sustentabilidade do Oceano lançou um prêmio em homenagem a professora Marta Vannucci, oceanógrafa e uma das maiores especialistas em manguezais que dedicou sua vida a ciência.
Algumas mulheres que fazem parte da Liga também já admitiram sofrer casos de machismo e assédio em momentos anteriores à fundação da Liga das Mulheres do Oceano, já que parte significativa das ações foram realizadas virtualmente devido à pandemia. Situações compartilhadas pelas mulheres que envolvem desde assédio a bordo até a falta de espaço em reuniões científicas para as mulheres, mesmo com a profissional sendo expertise no assunto.

“A união entre mulheres e oceano é muito importante porque há muito tempo as mulheres habitam o oceano, mas muitas vezes esse mundo foi muito fechado para elas. O mar sempre foi considerado um ambiente masculino, mesmo sendo muito habitado, protegido e cuidado por mulheres. Dessa forma, a ideia é empoderar e emancipar as mulheres para que elas possam ser livres para atuar onde elas quiserem com o oceano, trazendo a sua visão para a conservação marinha”, enalteceu Leandra sobre a perspectiva da Liga das Mulheres pelo Oceano.
Desde a fundação da Liga em 2019, a base fundadora constrói parcerias com outras organizações que acreditam também nas pautas que são relevantes para o movimento. Ao lado da WWF Brasil foi realizado um projeto sobre a Lei do Mar, por exemplo. “Esse ano fizemos uma campanha com a Fundação Grupo Boticário para falar sobre a relação das mulheres com o oceano no mês de março, e agora também estamos desenvolvendo uma campanha com uma organização do Reino Unido para falar sobre gases de efeito estufa e como fazer a captura de carbono”, explicaram Mariana e Natália Andrade, biólogas e integrantes da Liga.
Entre as atividades que a Liga realiza, a base fundadora tenta fornecer subsídios técnicos para que as pessoas possam basear suas decisões e suas escolhas a partir de conteúdo que é embasado em ciência oceânica. “Lutamos para que essas ações em prol do oceano impactem de forma positiva às agendas políticas e socioambientais. Estamos sempre inseridas em nossas atividades buscando potencializar as mulheres que lutam pela conservação do oceano”, destaca Mariana.
Desde a criação da Liga, a alteração da nomenclatura também ocorreu em seu nome. Mudou de Liga das Mulheres pelos Oceanos para Liga das Mulheres pelo Oceano. Apesar de não existir um termo explicitamente correto, segundo elas, a alteração aconteceu devido ao entendimento que o oceano é interligado. Ao longo da trajetória, elas decidiram se unir a uma campanha global de mudança de comportamento ao compreender que uma ação na costa brasileira pode ter consequência na Índia, por exemplo. Apesar de não ser errado utilizar o plural, essa foi uma forma de transmitir um sentimento de compartilhamento e da conscientização e responsabilidade em cuidar do mar. Afinal, apesar da liquidez da água, o sentimento de perseverança e luta pela preservação do oceano permanece mais sólido do que nunca na vida de cada uma dessas mulheres.
TOP 5 PERGUNTAS E RESPOSTAS com Mariana e Natália Andrade, biólogas e integrantes da Liga.
Quais iniciativas e práticas podem fazer diferença para diminuir os impactos ao oceano?
A nossa primeira indicação é a mudança de comportamento ou mudança de percepção realmente, de entender qual é a nossa influência enquanto sociedade no oceano e qual é a influência do oceano em nós enquanto sociedade, enquanto humanidade, enquanto pessoas, enquanto membros, membras de comunidades que moram perto ou longe do mar. Então essa primeira consciência, cada vez mais é de qual é o papel do oceano nas nossas vidas, seja no ar que respiramos, seja na água que consumimos, seja na chuva, seja na internet que vem por cabos submarinos, seja nas nossas compras, no que consumimos, que vem provavelmente carregado por navio, seja como a gente descarta nosso lixo. Todas essas nossas atividades cotidianas, elas podem ter algum impacto no oceano, impacto positivo ou impacto negativo, e ter essa primeira consciência é a iniciativa, a prática que a gente sempre recomenda. E em segundo lugar, mas não menos importante, tão importante quanto, é a partir dessa consciência, cobrar e trabalhar para que as políticas públicas, de gestão do ambiente natural e também socioambiental sejam mais alinhadas realmente com a saúde do oceano e com a saúde do planeta como um todo.
Qual recado vocês podem dar a respeito da preservação do oceano?
Nosso recado para um oceano mais sustentável é que um oceano justo é um oceano onde as mulheres tenham espaço para viver e trabalhar de forma igualitária e segura. Esse é o nosso recado para a conservação do oceano.
Como as pessoas podem ajudar a apoiar a liga?
Em primeiro lugar a liga é um coletivo de mulheres, portanto, valorizar, apoiar, fortalecer projetos, ideias, o papel das mulheres e o conhecimento gerado por elas já é para nós parte da nossa missão e qualquer pessoa que esteja fazendo isso já está contribuindo com a luta pela equidade de gênero. Acreditamos que esse é um bom ponto de partida para entender como que a gente se conecta com o oceano mais justo, com o planeta onde a gente tem uma relação mais sustentável e que a gente consiga realmente construir um lugar de convivência. Também cuidar do oceano, entender sua relação com o oceano é importante para fortalecer as ações da liga. Por fim, consumir o conteúdo que a gente gera, participar dos projetos, entender ou nos buscar para poder interagir com o que temos produzido, independente se mora perto do mar ou longe do mar ou se estuda ou não estuda ou trabalha com o oceano, isso já significa apoiar o que a liga acredita.
Qual palavra ou palavras vocês usariam para definir a Liga?
Usaria as palavras rede, movimento, solidariedade e acolhimento.
Quais cuidados proprietários/proprietárias de embarcações podem ter para diminuir qualquer impacto?
Proprietários e proprietárias de embarcações com certeza querem navegar por um oceano limpo, vivo e saudável e a responsabilidade para garantir que isso aconteça é de todos nós. Quem navega e quem não navega. Mas para quem tem embarcação, recomendaríamos cuidar muito com o descarte de substâncias, o despejo de qualquer resíduo, seja lixo, óleo e água de lastro que pode ter espécies exóticas ou qualquer outra substância química. Não existe jogar fora para quem está numa embarcação. Isso tudo vai para a água do mar, isso tudo vai ter impacto nos organismos que estão nessa área então é muito importante ter essa consciência com relação ao resíduo que é gerado na embarcação e para onde ele vai. Também é importante se atentar por onde essa embarcação está circulando. Quais são os ecossistemas que podem estar sendo impactados por essa circulação ou por essa presença. Sejam recifes de corais, manguezais, entre outros ecossistemas e organismos que vão estar circulando por esses ecossistemas que podem ser impactados ou gerar algum tipo de estresse pela poluição sonora, pela poluição luminosa, pelos resíduos, além do risco de acidentes. Então sempre é importante levar em consideração de ter uma relação, ter um comportamento respeitoso com o ambiente, que é um ambiente alheio a nós, que não somos seres aquáticos, e que é realmente a casa de muitos outros animais, organismos que não tem nada a ver com a forma que interagimos com esse ambiente, mas são super impactados por isso. Existem regras em muitos lugares e muitas áreas de navegação, algumas dessas regiões são áreas protegidas, por exemplo, e é sempre importante respeitar essas regulamentações para poder realmente garantir que essas áreas cumpram o seu papel de garantir a saúde do oceano, dos ecossistemas e dos organismos.
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