Matéria divulgada na 1ª edição da revista digital e interativa A Arte de Navegar.
Entender a brevidade da vida foi o que motivou o casal Sandro e Isabela a viajarem pelo mundo e se redescobrirem. Um recomeço repleto de aventuras, resiliências e reflexões sobre como a vida sempre guarda surpresas e encontros importantes, mesmo quando ela parece estar conspirando contra você.

Sandro, advogado e mestre em engenharia, estava trabalhando há um ano e meio em Londres quando retornou ao Brasil após seu pai ser diagnosticado com câncer. Ele nasceu em Niterói (RJ), porém, teve seu lar em Itajubá, no estado de Minas Gerais. Já Bela, como é conhecida, estava conectada com outro país – a Colômbia. Havia casado aos 25 anos e se mudou para o país onde seu então marido trabalhava. Mas o que ambos não sabiam é o que o encontro deles já havia acontecido. O pai de Bela fora professor no mestrado de Sandro, com quem também prestava consultorias na área. Eles nunca tiveram mais de cinco minutos de conversa, mas já tinham conhecimento de forma indireta sobre a vida do outro. Após 15 meses de casamento, Bela ficara viúva – perdeu seu marido em um acidente de moto. Foi neste choque que ela percebeu como a vida é breve e sentiu a urgência de viver tudo o que podia o mais rápido possível. Enquanto Bela tomava decisões sobre seu futuro, Sandro perdia seu pai para o câncer. Uma dor imensurável que o também fez mudar de vida e fazer escolhas que o mudariam para sempre.

Bela se tornou comissária de bordo e Sandro foi morar em um veleiro com um amigo, com o objetivo de viajar o mundo. Seis meses depois o reencontro do casal aconteceu. Em uma viagem com amigas para Ilha Grande (RJ), Bela encontrou Sandro e o namoro deu início. Naquela época ele estava a bordo de um veleiro, o Obelix. Esse reencontro aconteceu após 13 anos, época que se conheceram pela primeira vez, de maneira formal e sem carinho ou interesse amoroso.
O namoro começou com a intenção de se encontrarem no barco, já que Bela tinha facilidade em viajar por ser comissária de bordo. Foi então que surgiu o nome Viver por Ar e Mar – ela comissária e ele velejador. Na época, a empresa aérea em que Bela trabalhava ofereceu uma licença, foi quando decidiram conhecer o mundo em um período sabático. Isso era maio de 2016 e foi uma experiência memorável na vida de ambos. Visitaram 35 países em 18 meses de viagem. “Óbvio que se passa a ter outra maneira de interpretar a vida, sua relação com as outras pessoas, com a própria vida, com a natureza, com o trabalho, enfim, tudo se apresenta de uma forma diferente. Queríamos nos expor ao novo. Isso foi fundamental nessa experiência. Quebramos inúmeros paradigmas e passamos a fazer tudo de uma forma mais afetiva realmente conectada com nossos efetivos desejos de viver”, enfatizou Sandro.

Sobre a preocupação das famílias com a decisão deles, eles garantem que o incentivo sempre esteve presente. Havia uma preocupação natural, mas nunca os impediram de realizar esse sonho e caminhar para novas aventuras e experiências. A respeito do planejamento para essa viagem, eles destacam que o foco estava no momento e na oportunidade do sabático. “Claro que um movimento como esse exige que se tenha um mínimo de condições financeiras. Contudo, planejamento totalmente estruturado pode se tornar perda de tempo. Inúmeros são os acontecimentos que não temos como prever. O melhor planejamento é estar pronto para mudar e se adaptar. Essa habilidade tínhamos e temos”, compartilhou Sandro.
Sobre suas diferenças eles enfatizam que se completam. Sandro é mais ligado às pessoas, ao querer saber o que pensam, para onde vão e de onde vêm. Já Bela tem mais aptidão para conhecer os detalhes dos lugares, a buscar novos sabores, conhecer os costumes de beber e comer.

O veleiro – nomeado de Amazônia – apareceu na vida do casal em Burriana, na Espanha. Eles já alimentavam a ideia de comprar um barco na Croácia devido aos melhores preços oferecidos na região. Foram até o país e se interessaram por uma embarcação, porém, seria entregue depois de muitos meses. Enquanto a data não chegava procuravam outros barcos, foi quando Bela se encantou pelo Amazônia. Com tudo o que buscavam, ainda se mostrou um barco extremamente forte e navegável. Fizeram a proposta e após dois dias já se mudaram para o veleiro – o lar de ambos até hoje. Sem roteiro definido, eles não costumam planejar de forma antecipada. Acompanham o clima e conversam regularmente com velejadores mais experientes, de forma a aprender constantemente e escolher o melhor destino para seguir no momento.

Questionados sobre as experiências vividas, eles não economizam palavras para compartilhar a importância de tudo o que viveram na evolução de cada um. “Quanto mais conhecemos o mundo, quanto mais vivemos, mais perspectivas se abrem, outros desejos surgem. Passamos a buscar mais qualidade em nossos dias. Tentamos deixar bobagens de lado”, relatam.
Se toda a situação ajuda no amadurecimento de cada um, assim também acontece com as dificuldades em alto mar. “Tivemos um enorme problema quando encalhamos em um porto em Camerota, na Itália. Ficamos presos a noite toda e conseguimos sair somente quando o pessoal de uma marina veio para nos puxar pelo mastro, para inclinarmos e conseguirmos desencalhar”, relembra Sandro.
Nos perrengues da vida nada melhor do que ter ao seu lado alguém que aprecie a vista, mesmo em meio a dificuldades e turbulências. É assim que Sandro e Bela escolheram viver: livres. Com liberdade de serem o que quiserem individualmente, porém, crescendo juntos sempre. Afinal, cada escolha feita constrói uma nova ponte para o futuro que desejam para si mesmos.
Companheiras a bordo

Vick e Chica – uma dupla e tanto que já viveram muitas experiências ao redor do mundo. Vick era da Bela e de seu falecido marido, razão pela qual Sandro se nomeia padrasto dela. A Chica foi adotada na Espanha. Na época, Bela tinha o desejo em fazer um trabalho voluntário com animais até o final do inverno, mas foi impossibilitada pela pandemia. Porém, em sua pesquisa pelos sites se interessou pela Chica – momento em que decidiram adotá-la.
Sobre a adaptação delas com a vida no mar, eles contam que Vick se adaptou muito bem ao veleiro, já Chica teve um pouco de enjoo no início. Agora ambas parecem que nasceram dentro do veleiro.
O registro da experiência

Em 2022, o casal terá o lançamento do primeiro livro sobre toda a história que viveram nos últimos anos. Segundo eles, escrever o livro era uma promessa desde a primeira viagem. O objetivo era relatar cada experiência e deixar alguma contribuição para quem pretendesse fazer o mesmo. “Depois do que vivemos na primeira temporada no mar, colocar essas coisas no papel passou a ser algo mais importante para nós. Quando vemos tudo que já fizemos, sentimos que falta ter isso escrito, para que não se perca na memória. Como efetivamente vivemos absolutamente tudo que está no livro, colocar no papel não exigiu um processo de criação. Tudo aconteceu e estava na mente”, contou Sandro.
O livro é escrito em primeira pessoa pelo próprio Sandro e mostra o início desta história de amor e como a conexão presente entre ambos foi importante para caminharem no sentido que tudo aconteceu. Eles também abordam o sabático como um período que os transformou pelas experiências que vivenciaram e como retornar as suas rotinas de antes se tornou impossível. “A primeira parte foca em como algumas das experiências foram marcantes ao ponto de nos influenciar para tal mudança. Depois, já decididos a morar no barco, passamos a relatar como foi a compra, os amigos que ganhamos, os percalços de se morar fora do Brasil e as dificuldades do início da vida a bordo. Claro que falamos das maravilhas que vivemos no mar. No final, terminamos na chegada em Roma, para o fim da nossa primeira temporada de verão no mar”, detalhou Sandro.
Para contribuir com o lançamento do livro ou se tornar um patrocinador, entre em contato com Sandro Masseli e Isabela Almeida pelo Instagram @viverporaremar
BATE PAPO EM MAR COM SANDRO MASSELI
– O que significa o mar para vocês? E a natureza em geral?
O mar significa nossa casa. Acho que é o lugar que nos encontramos. Gostamos da conexão que ele nos proporciona com a natureza. Penso que para apaixonados pelo mundo, ele elimina fronteiras e parece colocar o mundo ao nosso alcance.
Como foi a experiência do sabático de 18 meses?
Foram experiências incríveis. Passamos quase um mês em Cuba, atravessamos o norte da Europa e entramos de ônibus na Rússia, fomos de St. Petersburgo a Moscou de trem. Conhecemos boa parte de Israel, fomos para Jordânia caminhando e entramos no Egito também andando, pela região do Sinai. Acampamos por 5 dias com beduínos no Saara, navegamos por 3 dias no Nilo. Cruzamos o Rajastão (estado da índia) de carro, fomos para o Nepal, nadamos com tubarões-baleia nas Filipinas, cruzamos o Vietnã de norte a sul de trem, viajamos as duas ilhas da Nova Zelândia de Campervan e a fizemos o mesmo por 10 dias na Austrália. Viajamos por 30 dias da África do Sul até o Zimbábue em um caminhão e acampando. Terminamos a jornada em um voluntário de um mês em Uganda.
Qual foi o lugar mais inesquecível que visitaram? E por quê?
Costumamos dizer que a experiência mais marcante de nosso sabático foi o acampamento no deserto do Saara. Parece que não, mas tudo lá é muito marcante. Os diferentes cenários, os oásis no meio de um mundo de areia, a cultura dos beduínos, enfim, realmente nos marcou. No barco, temos como os melhores, os momentos que fizemos amigos, juntamos barcos, cozinhamos e dividimos aqueles momentos de vida. Como lugares bonitos, a Sardenha é incrível para navegar e a costa da Itália tem um charme único.
Por quê a Grécia e a Turquia foram escolhidas como destinos para a próxima temporada?
Esses países são caminhos naturais para velejadores que estão na Europa. A beleza, a história, a culinária, a cultura e o povo desses lugares fazem indispensável a visita para quem navega pelo mediterrâneo. Além disso, quando passamos lá pelo sabático, eu prometi para a Bela que voltaríamos um dia com o nosso barco. Ela agora está cobrando (risos).
Qual lugar ainda não visitaram e que possuem muita curiosidade e paixão em visitar?
Queremos chegar à Polinésia Francesa. Chegar de barco na Grécia também tem nos deixado bastante ansiosos.
Qual mensagem vocês querem transmitir com o Viver por Ar e Mar? E com a divulgação do livro?
Queremos deixar uma mensagem de vida. Penso que queremos mostrar para as pessoas que existem outras formas de se viver a vida e que se não percebermos, ficamos apenas sobrevivendo. Queremos despertar nas pessoas a vontade de se ter uma vida efetiva. Não que a vida efetiva seja em um barco, viajando pelo mundo, mas sim uma vida de escolhas próprias, que não seja resumida a trabalhar, pagar contas, constituir patrimônio, aposentar e morrer. Queremos mostrar que cada um deve fazer o que curte. Mostrar para as pessoas que o melhor plano é o de viver.
Qual lição vocês levam até hoje sobre tudo o que viveram desde o início do projeto?
Que o mundo é muito maior e mais complexo do que pensávamos, mas que caminhar por ele não é tão difícil como imaginávamos.
O Viver por Ar e Mar começou antes da pandemia. Como foi a relação de vocês com esse período conturbado no mundo e com essa perspectiva de conhecer o mundo de veleiro?
Foi muito difícil durante a pandemia, pois a vida no barco foi uma opção de viver em liberdade. A Covid-19 acabou nos obrigando a ficar presos. Acabou que também nos deixou mais convictos que os planos nunca são possíveis de seguir. Sempre haverá algo a influenciar, que não temos como prever. Seja uma simples chuva ou uma pandemia.
A longo prazo, vocês continuam imaginando fazer da casa de vocês e dos próximos passos de suas vidas uma aventura pelo mundo?
Ainda não temos previsão de fim da vida a bordo. Queremos ter filhos no barco e isso deve acontecer em breve. Nossa ideia é chegar até a Polinésia e lá ficar por alguns anos.
Qual palavra vocês usariam para definir toda essa experiência vivida até aqui?
Viver.
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